Cansado de ouvir sobre machismo e
racismo? Imagine quem vive isso
Djamila Ribeiro, 02/09/15 -
lugardemulher.com.br
Quem
é feminista ou milita na luta antirracista ou no movimento LGBT com certeza já
ouviu de alguém a frase: “Ah, mas vocês só falam disso” ̵ seja para expressar cansaço ou destilar ódio.
Essas
pessoas, obviamente, ignoram que machismo e racismo são elementos estruturantes
dessa sociedade, logo, nenhum espaço estará isento dessas opressões. Basta
vermos as desigualdades salariais entre homens e mulheres ̵ se
falarmos de mulheres negras, a distância é maior ainda ̵ ou o
número de jovens negros assassinados pelo Estado.
Para
nós, falar desses temas é questão de sobrevivência, é denunciar a dura e
desigual realidade. Pedir para pararmos de falar disso, seguindo a síndrome
Morgan Freeman de ser, é querer manter as coisas como estão. Freeman, em uma
entrevista, disse que o dia em que pararmos de falar de racismo, ele deixará de
existir, como se racismo fosse uma entidade.
Fazendo
uma analogia simplista, e um “argumento” simplista como esse requer uma
analogia assim, se uma pessoa está com câncer e deixa de falar nisso e procurar
tratamento, a doença simplesmente vai desaparecer? Não querer discutir temas
tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério. Há
uma frase que circula nas redes sociais que explica bem: “Se você está cansado
de ouvir falar sobre racismo, imagine quem vive isso todos os dias”.
Fora
isso, há os intelectuais e especialistas que adoram dizer serem pessoas que
falam de tudo, arvoram-se por falar de tudo. Esses também se referem a nós como
pessoas que “só sabem falar disso”. Nesses casos, eu julgo ser pior, porque
essas pessoas têm acesso a um debate mais crítico, mas preferem se esconder por
trás de seus privilégios.
Criam
categorias como literatura feminina, assuntos para mulheres. A literatura
produzida por eles é tida como universal e a feita por mulheres, “literatura
feminina”. Alguém já ouviu alguém falar em literatura masculina? Criam sub
categorias para hierarquizar arte e conhecimento. Julgam que falam do universal
enquanto nós só falamos do específico, do “nosso mundo”, quando é justamente o
contrário.
Ao
falarmos de nós, estamos denunciando o quanto essa categoria universal é falsa,
pois tem como base o homem, o branco. Apontar isso, é justamente ampliar essa
categoria de universalidade, fazê-la abranger um número maior de possibilidades
de existência.
Se
racismo e machismo são elementos fundantes dessa sociedade, as hierarquizações
de humanidade serão reproduzidas em todos os espaços. Deste modo, a ciência já
foi utilizada para legitimar racismo através dos estudos de evolução biológica
do século 19 que introduziu o conceito de “racismo biológico”, assim como
também para querer provar uma “inferioridade natural” da mulher.
Como
disse Bourdieu: “A ciência neutra é uma ficção. Uma ficção interessada”. Há o
interesse de quem possui os privilégios sociais de criar mecanismos de
manutenção desses privilégios, seja pela ciência, pela arte ou pela educação.
Lélia Gonzalez, intelectual e feminista negra aborda essa questão em suas
obras.
Criticando
a ciência moderna como padrão exclusivo para a produção do conhecimento, vê a
hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população,
uma vez que o modelo valorizado e universal é branco.
Nada
é isento de ideologia. Como acadêmica e militante, ouço por parte de alguns
acadêmicos que sou ideológica por estudar feminismo, como se eles também não
tivessem seguindo uma ideologia, inclusive a de decidir quais temas são
legítimos ou não e a de nos manter fora desses espaços. Nosso “stand point”,
ponto de partida, como define Patricia Hill Collins, ou o nosso “só falar
disso” nos permite refutar esse modelo e pensar outros mais plurais e
democráticos. Não é possível falar de política, sociedade, arte, sem falar de
racismo e sexismo.
Falar
de questões que foram historicamente tidas como inferiores, falar de mulher,
população negra, LGBT é romper com a ilusão de universalidade que exclui. A
concepção de universal de quem está no poder é um dado ilusório. Não nos
enganemos quando eles dizem que falam de temas universais e nós não. Eles estão
tão somente falando de si próprios.